segunda-feira, 18 de maio de 2009

Hugo Zorzetti

Entrevista histórica concedida pelo diretor e dramaturgo Hugo Zorzetti ao Magazine do POPULAR, no dia 14 de dezembro de 2005, editada por Rosângela Chaves. Registro importante para a posteridade, por isso foi postado neste blog. .

Memórias do camarim

Ninguém melhor do que o diretor, teatrólogo e professor Hugo Zorzetti para contar a história do teatro em Goiás.

Valbene Bezerra

Um dos fundadores da Escola de Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, coordenador do curso de teatro do Centro de Educação Profissional Basileu França, experiente dramaturgo e diretor do Grupo Exercício, ele conhece a área como poucos, afinal há mais de 50 anos atua no meio. Zorzetti trabalhou e conviveu de perto com Otavinho Arantes, Cici Pinheiro e João Bennio, três expoentes das artes cênicas em Goiás. Ele resgata fatos marcantes, as estreias, a formação das companhias, as rivalidades e traça o perfil dessas três personalidades no livro Memória do Teatro Goiano, primeiro de uma série de quatro obras que autografa amanhã, às 20 horas, no Museu de Arte de Goiânia, no Bosque dos Buritis.

Os outros três volumes, Conversa de Camarim, Manual do Humorista Doméstico e Comédias, também integram o projeto Memória do Teatro Goiano, uma iniciativa do autor para resgatar a trajetória das companhias de teatro de Goiás. Hugo argumenta que não quis fazer biografia, mas traçar a personalidade e a maneira de atuar de Bennio, Cici e Otavinho, para dar subsídios às novas gerações do teatro, especialmente aos estudantes.

Foram 10 anos de intensa pesquisa, feita por conta própria, que só agora pôde ser publicada graças ao patrocínio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Zorzetti revela que já concluiu o segundo e o terceiro volumes da sua coleção sobre teatro. No segundo, os grupos de teatro da capital, personagens da cena atual e diretores como Carlos Fernando Magalhães, do extinto Grupo de Teatro Universitário, serão o assunto em destaque. O terceiro ressuscita os heróis dos palcos das cidades do interior.

Memória do Teatro Goiano é um importante trabalho, não só para estudantes, atores, diretores, produtores de teatro. É também uma leitura interessante para quem deseja saber mais sobre o cotidiano de sua própria cidade. Conversa de Camarim reúne fatos engraçados ocorridos nos bastidores do teatro. Em um deles, Hugo Zorzetti conta como teve de ir com urgência a São Paulo, obedecendo a ordens do ex-superintendente da Cultura Aldair Ayres, para comprar perucas e maquiagem, que nunca foram usadas, para a reinauguração do Teatro Goiânia, em 1977, no governo de Irapuan Costa Júnior. “Alguém cismou que num teatro não podiam faltar perucas e maquiagem. Foi gasta uma fortuna com esse material, levado pelos grupos que passaram pelo teatro”, diz Zorzetti.

O volume Comédias traz seis textos do autor encenadas pelo Grupo Exercício: Com a Breca, Santa! ou Quem Está Falindo as Grandes Instituições Financeiras do País?, Morreu, Mas Passa Bem, Ópera Cínica, O Prêmio, O Impublicável Dossiê da Intimidade ou Crônicas de Motel e Humilhação. Um de seus trabalhos mais conhecidos, Eta! Goiás, ficou fora do livro, pois ele nunca o passou para o papel. Quarto volume da série, Manual do Humorista Doméstico – Rudimentos Teóricos e Práticos sobre o Riso e as Técnicas de Comicidade, lançado em 1998, está com a primeira edição esgotada. Trata-se de uma referência teórica para pesquisa e reflexão sobre a comicidade e o riso.

Zorzetti decidiu publicar a pesquisa quando criou, com o apoio de Glacy Antunes, diretora da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, o curso de Artes Cênicas, em 2000. Encarregado da grade curricular, fez questão de inserir a disciplina Teatro Goiano. “Foi um deus-nos-acuda. A professora Mazé Alves se deparou com a completa falta de material”, revela. Hugo resolveu deixar os escrúpulos científicos de lado e contribuir na recuperação da história do teatro goiano.

É sem dúvida urgente fazer esse resgate. Muitas pessoas que viveram a história ou se recordam de fatos importantes da época estão morrendo. “A maior parte do material está nas mãos das famílias. Fiz muita pesquisa às pressas, na casa da própria pessoa, porque elas não emprestam. Têm ciúmes”, disse. Na entrevista a seguir concedida ao POPULAR, Zorzetti fala sobre vários assuntos, afinal ele próprio é uma história viva do teatro em Goiás.

Perfil
“Sou goianiense. Comecei por volta de 1964, quando estudava no Atheneu Dom Bosco, com pessoas que conheciam teatro. Depois continuei no Colégio São Domingos. Fiz um quadro no programa A Juventude Comanda, do colunista Arthur Rezende, na TV Anhanguera, junto com o Phaulo Gonçalves (um ator injustiçado, que teve uma passagem maravilhosa pelo teatro). Chamava-se Pãopular. Era uma sátira ao POPULAR. O ator Hugo Zorzetti nasceu junto com o autor. Escrevia para consumo nosso, uma turma de aventureiros”.

¤Primeira peça
“Se alguém se lembrar dela digo que não fui quem a escreveu. Chamava-se Fogo na Canjica. Era abominável. Mas foi uma experiência maravilhosa. Eu tinha acabado de participar de uma adaptação do O Pequeno Príncipe, com uma companhia do Rio de Janeiro, que veio se apresentar aqui. Era dirigida pelo Sidney Cardoso. Houve um racha na companhia e ele convidou atores de Goiânia para o elenco. Fui um deles. Foi o primeiro dinheiro que ganhei com teatro. Entusiasmado, montei a Companhia Teatral de Goiânia (CGT), junto com o Phaulo Gonçalves, Wander Arantes, Pedro Afonso. Era uma pretensão. Coisa de adolescente”.

¤Chrystian
“O Zezinho [o Chrystian, da dupla Chrystian & Ralf] integrou o elenco como o Pequeno Príncipe. Ele era um pirralho. O pai o levava para os ensaios em uma bicicleta. No segundo dia de apresentação no Teatro Goiânia, roubaram a bicicleta dele. Aí toda a renda da temporada foi para pagar o prejuízo do pai do Zezinho. Era uma aventura fazer teatro”.

¤Bennio
“Conheci João Bennio nos anos 1960. Ele morava no segundo pavimento do Teatro de Emergência, que existia onde hoje é o Jóquei Clube. Estava perambulando pelos bastidores do teatro e quebrei uma lâmpada importada, caríssima. Alguém me disse: “Olha, essa lâmpada é do João Bennio”. Subi as escadas para pagar a lâmpada. Acabamos fazendo amizade. Pouco depois, passei a ensaiar meu grupo no teatro dele. Um dia, estava ensaiando e o Bennio desceu e me disse: “Vocês não estão gritando muito?”. Foi a primeira admoestação que recebi como ator e diretor”.

¤Experiência
“Aprendi a fazer teatro fazendo. Minha escola foi experimentar para saber até onde vai a linguagem teatral, quebrar a cara, acertar e errar, me penitenciar com os erros, ouvir muito. Fiz cursos, li muito, pesquisei, me aperfeiçoei. Teatro nunca foi uma escolha. Entrei no teatro como brincadeira. Sempre digo que não gosto de teatro. Não sou apaixonado pelo teatro. Sou um profissional do teatro. Ensino teatro porque aprendi, leio muito, tenho uma das maiores bibliotecas sobre o tema, me sinto com capacidade para transmitir meus conhecimentos. Minha área de atuação é a lingüística, a literatura, a gramática, bem próximas do teatro. Acabei me envolvendo”.

¤Pedagogo
“Tudo o que faço vira aula de teatro. Não me considero um professor de teatro, mas um pedagogo do teatro. Todos os atores que trabalham comigo sabem que começo a dirigir um espetáculo como encenador e termino como pedagogo. Quero mostrar o porquê de tudo, as raízes do que estou demonstrando, o suporte técnico, o respaldo de bibliografia. Tive excelentes convites para seguir carreira fora daqui, mas não me sinto como diretor de teatro. Nos últimos dez anos, tenho feito muito pouco teatro. Estou mais envolvido com o estudo. A fundação da Escola de Artes Cênicas exigiu muito de mim, porque eu era praticamente o único professor de teatro da universidade”.
Aprendi a fazer teatro fazendo. Minha escola foi experimentar para saber até onde vai a linguagem teatral, quebrar a cara, acertar e errar, me penitenciar com os erros, ouvir muito. Fiz cursos, li muito, pesquisei, me aperfeiçoei. Teatro nunca foi uma escolha. Entrei no teatro como brincadeira. ”

¤Sátira
"Fiz dramas e tragédias. Grande parte do trabalho que fiz no Teatro Universitário tinha conotação política. Foram mais de dez peças. A comédia entrou na minha vida até para satirizar a mim mesmo. Cansado de fazer teatro com platéia reduzida, resolvi fazer comédia de consumo imediato. É mais fácil para arregimentar público e recursos, e pode ser feita no calor do momento histórico".

¤Teatro jornalístico
"Gostaria de fazer teatro jornalístico, para explorar os assuntos do momento. Aqueles que tocam o ser humano, que podem criar e demover opiniões. Acho que o teatro tem essa função. Infelizmente, teatro é caro, não só em termos financeiros, mas também no sentido de empenho, desempenho. Para mim, o teatro pleno é o que invoca aquilo que está acontecendo, sem a pretensão de ser uma coisa para o futuro. Seria bom que estivesse na folhinha ao mesmo tempo que no palco".

¤Grupos
" O Teatro Universitário Galpão foi a minha primeira aventura dentro da UFG, na década de 1960. Era uma dissidência do Teatro Universitário oficial, que era dirigido por um professor de São Paulo. Ele seguia, mais ou menos, as notas do clima político da época. Nada podia ser muito ousado politicamente. . O teatro tinha de ser comportado. Isso acabou criando divergências, e o DCE resolveu criar um teatro próprio. Estava em casa, quando chegaram os estudantes me convidando para dirigir. Eu estudava na UCG. Foi uma época terrível. Éramos demasiadamente perseguidos, foiceados. Fazíamos a coisa clandestina mesmo. Mandávamos um texto para a censura, encenávamos outro. Se havia algum censor na platéia, apagávamos as luzes. O ensaio geral tinha de ser feito na presença do inquiridor e fazíamos outra peça. Muitos colegas morreram, foram trucidados, assassinados pela ditadura."

¤Formação de ator
"É importantíssimo. A Escola de Teatro da UFG mudou a cara do teatro em Goiás. Não que antes não houvesse teatro. Mas hoje já existe um questionamento técnico para se aprofundar, um avanço dos limites técnicos, do conhecimento da história do teatro. Muitos professores têm vindo de fora para dar aulas aqui. O próprio corpo docente da escola sentiu necessidade de buscar mais oxigênio. Hoje os artistas têm a quem recorrer. Há um campo vasto para experiências, para pesquisa. É claro que não é uma escola para fazer talento. É uma escola para montar talento, substanciar talento, e para trazer ciência".

Livro
" Cici Pinheiro, João Bennio e Otavinho Arantes influenciaram toda uma geração. É difícil não sentir a presença desses três expoentes dentro do panorama teatral do Estado. Acho que com relação a eles esgotei o assunto nesse livro. Até porque eu não quis fazer um trabalho biográfico, tampouco fazer algo que trouxesse um registro da obra de cada um. O peso da vida deles, a ligação de cada um desses elementos dentro dessa história, é muito grande. Foram três pessoas com alma teatral. Cici Pinheiro sofreu por ter dado o primeiro beijo no teatro. Foi discriminada. O Otavinho Arantes, que muita gente chama de baluarte do teatro, também foi discriminado. Eles tiveram uma vida difícil trabalhando pelo teatro. E estão sendo esquecidos. Quis pegar a alma deles e colocá-la dentro do livro".

QUEM FORAM

Otávio Zaldivar Arantes (Otavinho Arantes) – Nasceu em Trindade, em 1922. Morreu atropelado em Brasília, no dia 10 de julho de 1991. Foi diretor, encenador e fundador da extinta Agremiação Goiana de Teatro (AGT) e do Teatro Inacabado, da Fundação Otavinho Arantes.

Floracy Alves Pinheiro (Cici Pinheiro) – Nasceu em Orizona, em 1929. Morreu em Goiânia, no dia 9 de abril de 2002. Foi atriz, diretora e escritora e também dirigiu o Instituto Goiano de Teatro, da Fundação Cultural de Goiás (atual Agência Goiana de Cultura).

João Bennio Baptista (João Bennio) – Nasceu em Presidente Soares, Minas Gerais, em 1927. Veio para Goiânia em 1955, onde morreu em 18 de junho de 1984. Foi ator e diretor de teatro e cinema, fundador do extinto Teatro de Emergência e diretor do Teatro Goiânia.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Curitiba: vitrine do teatro

Curitiba foi e continua sendo minha escola de teatro. Maior vitrine do teatro brasileiro, o Festival de Curitiba me dá oportunidade de conhecer o trabalho de atores, diretores e grupos de praticamente todo o País e até do exterior. Das 18 edições até agora (2009), participei, como convidada, de pelo menos 12.

Fui pela primeira vez em 1996, incentivada pela editora do Caderno 2, Karla Jaime. Fiquei uma semana assistindo peças e palestras, uma delas, com Gerald Thomas, na época considerado o mais polêmico e genial diretor em atuação. Lembro-me de que quase todos os jornalistas saíram do teatro. Eu fiquei até o fim. Queria saber mais sobre o seu trabalho no Brasil e no exterior. Para minha decepção, Thomas falou o tempo todo sobre si mesmo, e quase nada do seu método de trabalho. Foi um desperdício de tempo. Em outra oportunidade, estive novamente com ele. Assisti duas de suas criações e participei da coletiva, convocada por ele, para falar sobre sua participação no festival.

Qual nada. A entrevista era para reclamar da produção do evento, ridicularizada por ele em pleno palco do Teatro Guairinha, ao vivo e em cores. Na platéia, como espectadora, encontrava-se a crítica Barbara Heliodora, do jornal O Globo, com quem ele travara uma discussão acalorada pelas páginas do jornal. Barbara ousara falar mal de um de seus trabalhos. Não me empolguei com seus espetáculos. Naquela edição (não me recordo mais qual delas), Gerald Thomas foi o assunto principal entre os jornalistas, inclusive eu que fiz uma ótima matéria para o Caderno 2. O assunto rendeu.

Atores e diretores
Em Curitiba, entrevistei os grandes diretores do teatro: Antonio Abujamra (alterado, provocador, impaciente), Antonio Araújo (Apocalipse 1.11), Gabriel Vilela (verdadeiramente mineiro, diplomático), Mauro Rasi (saudosa lembrança), Naum Alves de Souza (Aurora da Minha Vida), Fernando Bonassi (extremamente bem articulado), Cláudio Botelho (memória invejável, atencioso, falante), João Falcão (criatividade à flor da pele), Antunes Filho (impaciente) e muitos outros.

O Festival de Curitiba é uma mistura de sotaques, de tribos proveniente de todos os lugares. Palco de estreias, de pesquisas das linguagens cênicas, das experimentações, das das simples encenações às mais sofisticadas produções, que depois vão percorrer o País. De lá saem os espetáculos que vão iniciar temporadas no Rio e em São Paulo, e depois percorrer o País.

Nos seus 18 anos de existência, o Festival tornou-se uma referência para atores, diretores, produtores, críticos e jornalistas. Todos se encontram nos hoteis, teatros, no Memorial de Curitiba (fervilhante ponto de encontro, onde fica a assessoria de imprensa), no sobe e desce no Largo da Ordem, no Solar do Rosário durante o almoço ou o café colonial (comida maravilhosa que todos adoram), na feirinha do domingo.
Nos 12 dias do festival, o assunto só gira em torno de teatro.

Além das entrevistas com atores e diretores, o bate-papo com colegas jornalistas de praticamente todo o País enriquece nossos conhecimentos. A troca de experiências é sempre muito saudável. Por meio deles ficamos conhecendo os grupos de suas cidades. Há sempre uma sugestão, a indicação de algum espetáculo.

Lá tenho a oportunidade de assistir espetáculos que jamais passam por Goiânia, e ver no palco o trabalho de grupos referência do teatro: Galpão (BH), Armazém (RJ/PR), Tapa, Parlapatões Patifes & Paspalhões, Intrépida Trupe, Cia. dos Atores, e astros como Paulo Autran (sempre reverenciado), Luís Mello, Raul Cortez, Luís Carlos Vasconcelos, José Wilker, Walderez de Barros, Cássia Kiss. E outros que despontam como grandes nomes das artes cênicas atual: Mário Bortolotto (PR), Newton Moreno (dramaturgo pernambucano), o premiado Marcos Barbosa, do Ceará, e Luiz Fernando Marquez, do Grupo XIX de Teatro, de São Paulo. Grace Passô, de Belo Horizonte e muitos outros.

Repórter cobrindo teatro

O teatro voltou a fazer parte da minha vida quando fui trabalhar no Caderno 2 do jornal O POPULAR. Como repórter, fazia todo tipo cobertura. Minha função primeira era (e ainda é) organizar o roteiro de atrações de toda a cidade: noite, teatro, dança, show, curso, seleção, etc...) . Virei expert em ACONTECE. Em meados de 1990, Karla Jaime Morais (nossa editora) resolveu distribuir as áreas de cobertura: cinema (Tacilda Aquino), artes plásticas (Nádia Timm), decoração (Margareth Gomes), moda (Ana Cláudia), comportamento e afins (Marluce Zacariotti, Teresa Cristina Costa, Lara Nercessian), Sebastião Vilela (TV) Gêza Maria (literatura), Leonardo Razuk (música). E você, Valbene, vai cobrir o quê? Teatro, falei sem muita convicção, com medo da responsabilidade. Teatro era a área dela. Apaixonada por teatro, Karla faz comentários muito bem fundamentados, estudava o assunto e conhecia o meio teatral e os autores. Eu tinha de começar do zero.

Em 1996, todos nós do Caderno 2 participamos do curso de Teatro Brasileiro e Crítica Teatral, ministrado na própria Organização Jaime Câmara, pela jornalista e professora Carmelinda Guimarães. O curso de formação, aberto também a estudantes de jornalismo e atores, fora sugerido à empresa pelo diretor Marcos Fayad. A crítica de um episódio do Cabaré Goiano foi nosso trabalho de conclusão do curso. Fomos todos assistir ao espetáculo de Marcos Fayad, em cartaz no Centro Cultural Martim Cererê, para no dia seguinte escrever a crítica. Após a avaliação de Carmelinda, as críticas foram publicadas no jornal. Tião Vilela e Karla Jaime ganharam conceito máximo na avaliação da professora, hoje titular da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás.

Bibliografia básica
Ao assumir a missão, minha primeira providência foi estudar, ler tudo sobre teatro, acompanhar pelos jornais O Globo, Folha de São Paulo e Estado de S. Paulo as notícias sobre artes cênicas. As críticas viraram leitura obrigatória. Passei a admirar o trabalho de Barbara Heliodora (O Globo), Macksen Luiz (Jornal do Brasil), Leonel Fischer (O Dia), Beth Néspoli (Estadão), Valmir Santos (Folha de São Paulo), Alberto Guzik e Maria Lúcia Candeias (Gazeta Mercantil) .

Li praticamente toda a bibliografia disponível e iniciei uma pequena, porém significativa biblioteca sobre o tema. Karla Jaime, Gêza Maria e Rogério Borges contribuíram com exemplares importantes, como História Mundial do Teatro (Margot Berthold), Teorias do Teatro (Marvin Carlson), Panorama do Teatro Brasileiro e Moderna Dramaturgia Brasileira (Sábato Magaldi), Cem Anos de Teatro em São Paulo (Sábato Magaldi e Maria Tereza Vargas). Li também a biografia de Oduvaldo Viana Filho (Vianinha), Cacilda Becker, Marília Pêra, Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Ney Latorraca, Ruggero Jacobi, Augusto Boal, Nelson Rodrigues (O Anjo Pornográfico) e sua dramaturgia, sem falar nas crônicas de A Vida Como Ela É. As obras de Ariano Suassuna viraram livro de cabeceira.

Mais de 20 anos depois, As Mãos de Eurídice cruzou novamente o meu caminho. Ao saber que o ator Marley de Freitas encenaria o monólogo no Centro Cultural Martim Cererê tratei logo de adquirir o livro para melhor conhecer a história. Mais uma vez me emocionei com a interpretação, que exige entrega total do ator. Perdidamente apaixonado por Eurídice, Gumercindo Tavares abandona a família para viver uma aventura em Buenos Aires. Depois de perder a fortuna na banca de jogo de um cassino e consequentemente a amante, uma jogadora inveterada, ele procurar a mulher e o filho que abandonara e encontra a casa vazia. Marley de Freitas, assim como Bênnio, também conseguiu dar ao personagem a dramaticidade que a encenação exige do ator.

Marley, que já fizera o papel em outras oportunidades, entregou-se totalmente ao personagem, que além de João Bênnio fora por mais de 10 anos do ator Rodolfo Mayer, outro grande expoente do teatro brasileiro.

Minha história com o teatro

Meu primeiro contato com o teatro ocorreu no Instituto de Educação de Goiás, quando fazia o ginásio (ensino fundamental). Numa tarde qualquer, no auditório da escola, João Bênnio brindou a audiência, formada só centenas de meninas, com fragmentos da peça As Mãos de Eurídice, trabalho que durante muitos anos fez parte do seu repertório. Não sei se a intensa comunicação com a platéia ou a emoção que transbordava da magnífica interpretação do artista, me chamaram a atenção, muito mais do que o texto de Pedro Bloch, do que qual nunca ouvira falar.

Leitora assídua, eu ainda estava na fase de ler José de Alencar, Erico Veríssimo, Machado de Assis. As transgressoras Adelaide Carraro e Cassandra Rios, e a poesia de J.G. de Araújo Jorge, também fazia parte da nossa vida. Seus livros passavam de mão em mão como objetos proibidos.

Muito mais conhecido pela atuação no cinema, Bênnio nunca soube como tocou minha sensibilidade. Fiquei louca para ver o espetáculo inteiro. Não havia como... Eu morava longe, não tinha ônibus. Era difícil. No IEG, o que dominava mesmo era a música. Tínhamos uma banda (naquela época havia guitarra, bateria e até um piano à disposição das alunas). Liane Pimentel (onde andará?) tocava todos os instrumentos musicais e comandava o grupo. Música era disciplina obrigatória. Aprendíamos todos os hinos e músicas folclóricas. Teatro não fazia parte do currículo.

Professora
O tempo passou.Virei professora primária, formada no IEG. Fui fazer faculdade de Jornalismo, e trabalhar. O dinheiro era pouco. O que ganhava era para custear os estudos, ajudar em casa. O tempo era pouco e o fim de semana era reservado à correção de cadernos, de provas, elaboração de conteúdo, planejamento da semana e os trabalhos da faculdade. Passei muito tempo sem nem mesmo ir ao cinema.

Um dia fui ver Esperando Godot (Samuel Beckett), no Teatro Inacabado da AGT , com Eva Wilma e Lílian Lemmertz. Mal acomodada numa cadeira desconfortável, o calor infernal e uma companhia pouco afeita ao teatro, contribuíram para que eu não visse a “maravilha do impecável texto de Beckett e a interpretação magnífica das duas atrizes” que a crítica ressaltava. Depois disso, dei pouca atenção às artes cênicas. Planejava ser professora, e minha vida girava em torno da escola. Ensinar minhas crianças era um sonho que acalentava desde a infância.

Recordo-me de um garoto (André), de uns 9, 10 anos, que fazia seu próprio teatro na sala de aula. Criava os personagens, as historinhas, o cenário, e ele mesmo interpretava. Era um talento nato. Aquilo me encantava. Incentivei-o a escrever, a fazer o que gostava, envolvendo também os colegas. Mas, a vida dá muitas voltas. Paralelamente à carreira no ensino público, fui noutra direção. O jornalismo me absorveu completamente e não quis abdicar de nenhuma das duas funções: jornal e escola. Elas sempre caminharam juntas e dei tudo de mim para que dessem certo.

Sem descuidar das minhas crianças na Escola Municipal Leão de Ramos Caiado, no Setor Bueno, mergulhei de cabeça no jornalismo. Foram 10 anos sem feriados, sem descanso, noites mal dormidas por causa do excesso de trabalho. O tempo era curto para cuidar da casa, para prestar atenção no marido, no que ocorria a minha volta, em mim mesma. Me refugiava no trabalho. Não queria abrir mão de nada. Queria tudo, aprender o máximo. Cobrava muito de mim.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Palmas para o teatro

Este blog destina-se exclusivamente à divulgação das produções de artes cênicas em Goiânia. Com este espaço quero dar a minha contribuição aos atores, diretores, companhias e grupos de teatro, dança e circo, divulgando e avaliando as criações de cada um.

Goiânia tem um interessante movimento artístico e cultural. Muitos atores e grupos têm se destacado no cenário artístico local, e até mesmo fora dele apresentando suas produções de alta qualidade.

Montar um espetáculo exige criatividade, desprendimento, espírito de aventura. Não é só ter um bom texto em mãos, uma boa história para contar, um elenco disposto a tudo para subir no palco. É preciso, antes de mais nada, muita disposição para correr atrás de patrocínio ( escasso quase sempre), espaço e tempo para ensaiar. Com determinação e dinamismo, os artistas goianos têm contornado as dificuldades e ido à luta. Escrevem a sua própria história. A história do teatro em Goiás.

Há pessoas admiráveis no meio dispostas a investir no sonho, na fantasia, na magia envolvente do teatro, da dança e do circo. Quando a cortina se abre, o público aplaude, a emoção toma conta e nada mais importa. Todas as dificuldades ficam para trás.

Este momento único, que só pode compreender quem está diretamente envolvido com o fazer o artístico, precisa ser registrado. Vamos, portanto, construir juntos a história das artes cênicas em Goiânia. Conto com vocês.

Viva o teatro!!!
Viva a dança!!!
Viva o circo!!!