sexta-feira, 18 de agosto de 2017



                             FESTIVAL DA RESISTÊNCIA  


                                                              Valbene Bezerra





Recebo por e-mail a programação do 15º Festival da Federação de Teatro de Goiás – Feteg e as lembranças de outros tempos me vêm a memória. Nos idos dos anos 1990, passei a acompanhar de perto a cena teatral em Goiânia, e também os festivais. Foi um período rico, que fortaleceu o meio cultural, proporcionando o surgimento de muitos nomes, companhias e grupos ainda hoje atuantes. 


Grupos de Goiânia, Mineiros, Jataí, Porangatu, Anápolis, Aparecida de Goiânia e outras cidades disputavam com muito entusiasmo a premiação, que consistia, na maior parte das vezes, apenas em troféu. Muitos vinham para Goiânia com recursos próprios, porque o dinheiro para a realização do evento não era suficiente para as despesas de todos os concorrentes.  Não havia ainda as leis de captação. Apesar da simplicidade das produções e das limitações de seus criadores, havia um intenso burburinho para saber quem seria o vencedor, o que não vai ocorrer dessa vez. 


À época presidida por Eurípedes de Oliveira, que depois de alguns mandatos passou o bastão para Antônio Delgado Filho, seguido posteriormente para Norval Berbari, a Feteg chegou aos anos 2000, sob o comando de Danilo Alencar. O cargo agora pertence a Ana Cristina Evangelista, do Zabriskie Teatro. Todos sabem não ser fácil presidir uma entidade que tem sérias dificuldades de sobrevivência, com poucos recursos em caixa. A máxima no meio é “ficou inviável fazer teatro sem patrocínio”. De artista em início de carreira aos nomes consagrados, todos sofrem com a falta de apoio para a cultura. 


Felizmente, ninguém desiste. Ana Cristina, com entusiasmo e disposição, foi à luta, contornou problemas, fez captação na Lei Goyazes de Incentivo à Cultura e coloca em cena um evento que é uma tradição. Não fosse isso, nada poderia ser feito.  


É admirável a união  luta da classe para dar continuidade ao festival, que agora se resume a uma grande mostra de teatro, sem concorrência e sem premiação.  A programação de 2017 está restrita aos artistas de Goiânia, o que é uma pena, porque impede a abrangência de produções de outras cidades do Estado. O programa foi diluído em diferentes espaços da capital e de Aparecida de Goiânia para atingir todo tipo de plateia. 


Todos os espetáculos já foram apresentados, como O Cabra Que Matou as Cabras, da Cia. Nu Escuro, e A Clara de Ovo, do diretor Danilo Alencar, Assombração, da Esqueteria Macacos, Despertar da Primavera, da Cia. Anthropos.  Nenhuma produção é inédita, infelizmente.   Nos 12 dias do festival, estarão em cartaz 19 espetáculos de gêneros diversos, nos Teatro Zabriskie, Sonhus Ritual e Teatro do IEG, em Goiânia, e Teatro Cidade Livre, em Aparecida de Goiânia. Haverá apresentações também no Bosque dos Buritis, Praça Universitária, e em duas escolas públicas. Estão previstos também dois diálogos e 10 oficinas relacionadas ao fazer teatral.

Guido Campos Correa em SertãoHamlet


Entrada franca em todos os espetáculos.  


PROGRAMAÇÃO

Data
Horário
Local
Espetáculo
Grupo
Classificação
17/08 (qui)
20h
Teatro Zabriskie
Mundo Cão
Coletivo Curiar Feteg
Tragicomédia
18 anos
18/08 (sex)

19h
Teatro Cidade Livre
(Ap. de Gyn)
Assombração
Esqueteria Macacos
Causos
12 anos
21h
Teatro Zabriskie
Sertãohamlet
Sertão Teatro Infinito Cia
Drama
16 anos
19/08 (sáb)

17h
Teatro Zabriskie
Nem Um Nem Outro
Zabriskie Teatro
Comédia Infantil
19h30
Teatro Cidade Livre
(Ap. de Gyn)
Maria Bonita “Flor de mandacaru”
Cia. Teatro do Maleiro formas animadas y títeres
Teatro de Bonecos
Todas as idades
20/08 (dom)

10h
Bosque dos Buritis
Dois Patetas Espatifados
Trupicão Cia de Teatro
Comédia
Livre
19h
Teatro Zabriskie
O Cabra que Matou as Cabras
Cia de Teatro NU Escuro
Comédia
Livre
22/08 (ter)
20h
Teatro Sonhus (Lyceu de Goiânia)
O Fim de Um Começo
Cia de Teatro boca Grande
Drama
18 anos
23/08 (qua)

9h30
Teatro do IEG
Descolados
Cia Stars
Teatro Educativo
10 anos
21h30
Teatro do IEG
A plástica Desnecessária
Sem Nome Cia de Teatro
Comédia
12 anos
24/08 (qui)

15h30
Esc. Mun. Barbara de Souza Moraes
(Jd. Novo Mundo)
Era Uma vez - Lendas Indígenas
Experimental de Teatro - GET
Infantil
Livre
21h
Teatro Sonhus (Lyceu de Goiânia)
Dali
Cia Benedita de Teatro
Biografia
16 anos
25/08 (sex)

15h30
Esc. Est. Gracinda de Lourdes (Centro)
Guardiões da Natureza
Grupo Zumbi dos Palmares
Comédia
Livre
19h
Teatro Cidade Livre
(Ap. de Gyn)
A Caravana da Ilusão
Trupe dos Cirandeiros
Drama
14 anos
21h
Teatro Sonhus (Lyceu de Goiânia)
Katatonisch
Grupo Bastet
Mímica e Teatro Físico
16 anos
26/08 (sab)

19h
Teatro Zabriskie
Árvore dos Mamulengos
Cia de Teatro Sala 3
Livre
21h
Teatro Sonhus (Lyceu de Goiânia)
A Clara do Ovo
Arte & Fatos - Puc Goiás
Drama
14 anos
27/08 (dom)

19h
Praça Universitária
Farsa da Boa Preguiça
Grupo de Teatro Guará - Puc Goiás
Teatro de rua
Livre
20h
Teatro  Zabriskie
O Despertar da Primavera
Anthropos  Campanhia de Arte
Drama/musical
14 anos

Mais informações em: www.feteg.com.br

Texto originalmente publicado no site www.ermiracultura.com.br





segunda-feira, 6 de março de 2017



A CASA DE BERNARDA ALBA


                                                  CORAÇÃO DAS TREVAS


A Casa de Bernarda Alba

 A Cia. de Teatro Sala 3 comemora 15 anos de existência produzindo três peças da trilogia rural do espanhol Federico Garcia Lorca. Yerma, a primeira encenação foi levada ao palco em 2016, abrindo as comemorações, organizada pelo diretor Altair de Souza. A segunda, A Casa de Bernarda Alba estreou dia 17 de fevereiro, no Teatro Goiânia. A peça ficou três dias em cartaz, e agora retorna ao palco para uma apresentação, dia 07/03, às 20 horas, no Teatro Goiânia,  nos festejos do Dia da Mulher. Obra prima do grande poeta e dramaturgo, morto pela ditadura de Francisco Franco, em 1936, Bodas de Sangue, ainda sem data fixada, deverá encerrar o ciclo. 


Altair cuidou de cada detalhe, a fim de fazer do espetáculo um grande momento da sua companhia. Para a montagem de A Casa de Bernarda Alba, Altair de Souza captou recursos das Leis Municipal e Goyazes de Incentivo à Cultura. A esmerada produção exigiu ampla pesquisa, muito estudo de texto e  extensa ficha técnica, que incluiu preparação vocal, aulas de canto, dança flamenca, confecção de adereços cênicos. Altair convidou o ator Bruno Peixoto para preparar o elenco feminino, formado por Lívia Vergara, Graciela de Paula, Ana C. Amanda Constantino, Malu Nunes e Camila Borges. As aulas de canto foram ministradas pela professora Sheila de Paiva. A iluminação ficou por conta de Rodrigo Assis e a cenografia com Daniel Herrero.  Dieferson Gomes cuidou do figurino e do visagismo.  O musicista e professor Sérgio de Paiva selecionou a trilha sonora baseada nas canções espanholas. Dançarina de flamenco e professora, Renata Paolucci deu aulas de dança para o elenco e desenhou as coreografias.   Paulinho Pessoa fez a preparação visual. 


Clássico da dramaturgia, encenada no mundo inteiro, A Casa de Bernarda Alba ganhou produção goiana à altura da sua importância. O diretor levou captou com a máxima fidelidade do universo sombrio e opressivo da Espanha franquista, conservadora, rural e subdesenvolvida no início do século XX. Escrita em 1936, Garcia Lorca fez de A Casa de Bernarda Alba uma metáfora dos anos de repressão, fome e miséria da Espanha, onde a igreja exercia uma enorme influência sobre a população e os valores morais e espirituais eram rigorosos. Pouco depois, o dramaturgo seria fuzilado devido as suas posições políticas.  


Mãe de Angústias, Martírio, Madalena e Adele, a matriarca Bernarda Alba exercia grande poder sobre as moças com idades entre 20 e 39 anos, todas solteiras. Orgulhosa e rabugenta,  ela achava que não havia homem no povoado à altura das filhas.  Logo após o enterro do marido, a tirana tranca as moças dentro de casa e as proíbe de sair, manter contato com o mundo exterior, incluindo também a mãe velha e louca. Impõe luto fechado de oito anos. Acorrentadas, amordaçadas, sem chances de viver a própria vida, os conflitos não tardam a aparecer.  


Bernarda mantém a casa sob estreita vigilância. Filha do primeiro casamento da mãe, Angústias é a única que possui bens herdados do pai. Considerada velha e feia, é noiva de Pepe Romano, rapaz bem mais jovem que ela.  As irmãs não se conformam de sabê-la casada. Pepe Romano acaba sendo o pivô da confusão que se arma dentro da família, passando a ser disputado pelas três outras irmãs.  A caçula Adele tem sede de amor, de liberdade. Não demora a revoltar-se com a situação em que vive. Acaba seduzida por Pepe Romano, sua  paixão alucinada. O rapaz também não perde tempo. Envolve-se também com Martírio. Mesmo debaixo do olhar repressor da mãe, o confronto entre as irmãs é inevitável. Mas, a arrogante Bernarda não percebe a tensão entre as filhas até ser alertada pela criada, que tudo vê, e sabe bem o que se passa dentro do quarto de cada uma delas. 


Beleza visual

A encenação de Altair de Souza enche os olhos de tão bonita: figurino em tons negro e vermelho, correntes, adereços escuros, direção focada, iluminação que dá ao ambiente um clima sombrio como o coração das moças subjugadas pela mãe. Um pequeno retrato da  Espanha no tempo de Lorca. Altamente criativo, Altair ousa nas suas produções. Mas diferentemente da carpintaria, não conseguiu extrair do elenco a intensidade dramática exigida pelo texto. O mesmo acontecera com Yerma, a produção caprichada do diretor, que abriu a trilogia. 


 Ex-garoto revelação do teatro nos anos 1990, Altair de Souza estudou Artes Cênicas na UniRio, e desde suas primeiras produções demonstrou talento para os espetáculos de impacto, e preferência pela dramaturgia clássica.  Pelo elogiável esforço do diretor, a beleza visual e musical da produção, e a fidelidade ao texto de Lorca, o espetáculo A Casa de Bernarda Alba merece ser visto.  



Serviço

Espetáculo: A Casa de Bernarda Alba

Texto: Federico Garcia Lorca

Direção: Altair de Souza Jr.

Elenco: Cia. de Teatro Sala 3 – 15 anos

Data: 7 de março (terça)

Horário: 20 horas

Local: Teatro Goiânia (Av. Tocantins, esq. c/ Rua 23, Centro. Telefone: 3201-4685)

Entrada fraca

Classificação etária: 10 anos

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017



                        ROMEU E JULIETA EM RITMO DE ROCK


 Uma História de Romeu e Julieta


Cinema, teatro, balé, musical  e literatura  exploraram amplamente a história do amor trágico dos adolescentes Romeu e Julieta, os amantes de Verona. Por mais que o tempo passe, a bela história de amor, escrita por William Shakespeare entre 1591/1595 permanece eterna e atemporal, despertando o interesse de pessoas de todas as idades. 

O público jovem tem respondido muito bem à peça E[cs]xtas[y]e – Uma História de Romeu e Julieta, adaptada e dirigida por Wellington Dias,  que estará em cartaz no Teatro Sesc Centro  nesta segunda, terça e quarta-feiras (30 e 31/01 e 1º/02), às 20 horas. Formado por 14 jovens atores, o elenco subiu no palco outras dez vezes. Ao término da temporada, segundo o diretor, o grupo iniciará projeto escola.

E[cs]xtas]y]e exigiu esforço concentrado da direção, da equipe de produção e dos atores, a maioria sem muita experiência de palco. Exigiu ainda a captação de recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, porque sem patrocínio é impossível fazer qualquer produção teatral. Foram meses de leituras e  ensaios, sob o comando do assistente de direção e preparador de atores Edson de Oliveira.  A extensa ficha técnica inclui  coreógrafos, programadores visual e musical, cenógrafo, figurinistas e outros profissionais importantes para o desenrolar da produção.  

A adaptação de Wellington Dias da história de amor de Romeu e Julieta, proibido por causa da rivalidade entre suas famílias, é êxtase em estado puro, que mexe com a sensibilidade e exalta sentimentos. Como aquela “bolinha” que potencializa a euforia e torna as pessoas quase insanas. Apesar do clima de tragédia, o ritmo é de rock. Romeu e Julieta são moderninhos, se comportam e se vestem como qualquer jovem do século 21. Estão super apaixonados. Os três casais escolhidos para viver Romeu e Julieta em sistema de revezamento até se esforçam para expressar todo o sentimento amoroso dos adolescentes. Alguns até chegam a convencer no papel, outros nem tanto. Mas, o que realmente é todo do espetáculo.   
    soasimentos e imenso prazer.na sua imensa paixmais bonitas, Ana Carolin        
Funcionário do Sesc Goiás em tempo integral, Wellington Dias dedicou as horas vagas para fazer a produção, há muito tempo nos seus planos. Na montagem, optou por manter a essência do texto shakesperiano, porém modernizou a linguagem do clássico, originalmente escrito em versos.

 A cena roqueira está no figurino de Layon Berigo e Raquel Gabriela, composto de calças jeans, jaquetas, botas, acessórios de couro, tênis, tatuagens. Na trilha musical, sucessos de ícones do rock como Queen, Pink Floyd, Rihanna, Pitty, Nando Reis, Ana Carolina e até Chico Buarque selecionados  por Adriana Lemes e Paula Bernardes, que assinam  os arranjos, tocam teclados e percussão. Figura excêntrica do rock, Ingrid Lobo toca guitarra. 

Despojado, o cenário é composto por três plataformas sobrepostas que remetem ao castelo onde vivem os personagens. Para a famosa cena do balcão, o diretor optou pelo mezanino do próprio teatro.  Os atores  cantam, dançam, duelam com espadas, se movimentam intensamente no palco. As coreografias foram preparadas por Joisy Amorim e Vanderlei Roncato, do Grupo Giro8 de Dança. 

Elementos da cena contemporânea, a agilidade das cenas e a linguagem moderna tiraram um pouco da comoção que a tragédia de amor sucinta na plateia. Mas, nem por isso o espetáculo se torna menos interessante.  Se Wellington Dias queria levar o público jovem a conhecer e se emocionar com a obra-prima clássica e universal de Shakespeare seu objetivo foi alcançado.