sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DON FERNANDO




                         UM ÓTIMO ATOR EM ESPETÁCULO NADA ENVOLVENTE   


Ivan Lima
             

Ator de teatro com atuações marcantes ao lado de nomes consagrados da arte, desde Mazzaropi a Irene Ravache e Paulo Autran, Ivan Lima deixou os concorridos palcos do Rio e São Paulo para estabelecer-se em Goiânia há mais de 20 anos. 

 Em 2015, ele comemora 50 anos de carreira com o espetáculo Don Fernando, texto do paulista Ivan José, inspirado na obra do espanhol Fernando Arrabal, considerado um dos mais  representativos nomes do Teatro do Absurdo. 

Para dirigi-lo, convidou o ator e professor Rafael Ribeiro Blat, e o jovem ator Thiago Lopes, substituído posteriormente por Humberto Garcia. Cercou-se dos competentes  Rodrigo Assis e Paulinho Pessoa para desenhar a luz e o designer, além de Lino Calaça, para compor a trilha sonora. 

Grande conhecedor do fazer teatral, ator experiente, Ivan Lima é o centro das atenções da peça, destacando-se como Chester, o mais velho dos personagens. Desempenha bem o seu papel, sente-se à vontade nas cenas mais exigentes, inclusive nas de nudez. “Não tenho problema com nudez”, confessa o ator, que integrou o elenco do famoso musical Hair, atuando ao lado de Sonia Braga, Antonio Fagundes e outros. Thiago Lopes e Humberto Garcia apenas fizeram a lição de casa, para Ivan brilhar.  
       
 A história se passa dentro de um teatro decadente. O ator entra no palco pilotando uma potente motocicleta, usa roupas pretas de couro, toca piano de cauda, um luxo no palco do Teatro Goiânia. A iluminação contribui para dar ao ambiente um clima sombrio. Contudo, a dramaturgia surreal de Ivan José é confusa, de difícil entendimento. 

Chester e Tenniel são dois homens antagônicos. Iniciam um embate que pode terminar de forma trágica. Há momentos de delírio, culpa, traumas, a eterna luta entre o bem e o mal, a disputa do novo e do velho.   Enquanto o mais velho é sensível, romântico, sonhador, o jovem é arrogante, sedutor, atrevido.  O envolvimento de ambos revela sentimentos de afeto e beira à violência. “Interpretar Arrabal não é fácil. Sua obra é provocativa, exige muito do ator”, diz Ivan Lima. Exige muito também do espectador. 

De malas prontas para apresentar a peça no Festival de Asolo, na Itália, onde esteve em 2014, Ivan Lima substituiu Humberto Garcia pelo ator e diretor João Bosco Amaral, da Cia. de Teatro Oops!.. e reformulou a produção. Adaptou o texto ao estilo de Fernando Arrabal para deixá-lo mais palatável aos italianos, apostando também no bom desempenho de João Bosco. Ainda assim, o texto continua problemático.  Rafael Blat  inseguro na direção.  
     
Ivan Lima fez temporada de Don Fernando no Teatro Goiânia, e turnê em várias cidades do Estado. Cumpriu toda a trajetória exigida pelo Fundo Estadual de Cultura e Lei de Incentivo à Cultura, patrocinadores da produção. Depois da Itália, pretende dar continuidade à turnê.
    

Foto: Gilson P. Borges

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

GATO PRETO



          SUSPENSE DE ALLAN POE ADAPTADO PARA O TEATRO EM CLIMA DE HQ

 
Sol Silveira como Annabela
         
Autor de suspense consagrado, o escritor norte-americano Edgar Allan Poe é cultuado no mundo inteiro. Sua narrativa envolvente, recheada de cenas fantásticas, mistério, e  às vezes macabras, faz sucesso no cinema e no teatro. 

O diretor João Bosco Amaral, da Cia. Teatral Oops!... é um entusiasta da obra do autor, da qual pinçou o conto Coração Delator,  que deu origem ao monólogo Olho,  primeira parte da Trilogia Poe – Parte 1, sob a direção do ator Ivan Lima. João Bosco mostrou que sabe lidar com o universo do sobrenatural ao interpretar o personagem Iago, um assassino que acaba confessando o crime cometido. 

Ele retorna à obra de Allan Poe com o espetáculo Gato Preto, estrelado pela atriz Sol Silveira, patrocinado pelo Prêmio Funarte Myriam Muniz 2014 e apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Segundo episódio da série, Gato Preto narra a história de Annabela, mulher complexa e atormentada, que entra em transe toda vez que se depara com o gato de estimação da família, um belo animal de pelos negros. Tomada por um sentimento de aversão, Annabela culpa o gato por todos os seus problemas. O desequilíbrio emocional da personagem cresce ao longo da peça até o seu desfecho final. O ódio ao animal vai tomando conta da mulher, o que a leva a cometer um desatino.  

 A adaptação cênica de João Bosco Amaral é dinâmica. É contada em ritmo de histórias em quadrinhos em preto e branco. Imagens projetadas reforçam o clima de mistério.   Cenário despojado, composto de uma cadeira e um abajur, desenhado pelo estreante cenógrafo Gilson P. Borges, aliada à iluminação sombria, dão o tom a atmosfera sinistra da narrativa.  

Concluinte do curso de Artes Cênicas na UFG, Sol Silveira apostou na obra de Edgar Alan Poe para fazer seu trabalho de conclusão, desempenhando com segurança o papel de Annabela.  O longo vestido negro criado por Célia Rodrigues dá à atriz ares de viúva negra, loucamente acorrentada no desespero de sua perversidade.

Foto: Gilson P. Borges


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

PITORESCA



                   EXCESSOS E ESTERIÓTIPOS NA NOVA PEÇA DA CIA.NU ESCURO

Eliana Santos, Liomar Veloso e Adriana Brito em Pitoresca


Na medida do possível, tenho acompanhado a cena teatral. Espetáculos inéditos sempre chamam mais atenção. Das produções goianas que vi ultimamente está Pitoresca, estreia da  Cia. Nu Escuro, que tem patrocínio da Petrobras. O grupo promete retornar ao palco em Goiânia, e depois pegar a estrada.

Com dramaturgia e direção de Hélio Fróes, Pitoresca baseia-se  na história do Brasil contada pelos viajantes e aventureiros nos seus primeiros tempos de Colônia. O foco principal gira em torno de uma velha índia da terra Goyá.  O projeto demorou três anos  três anos para ficar pronto, após  oficinas, longas horas de estudos e pesquisas, e meses de  ensaios.  Inspirado na dinâmica das produções do Grupo Galpão (BH), os atores cantam, dançam.

O texto faz referências ao canibalismo, a antropofagia, a miscigenação, a personagens históricos como o bandeirante Anhanguera, que prometeu por fogo nos rios caso os índios não contassem aonde tinha ouro. Há também muitos esteriótipos e exageros  na narrativa, e elementos cênicos de montão. Equivocado e irônico, o figurino de Rita Alves vestiu coloca em cena índios vestidos com roupas de ginástica da marca Adidas, tênis de marca, óculos tipo Rai Ban.  Tem até um Papai Noel  na encenação.

Pitoresca quer ser engraçado, debochar das nossas mazelas históricas, que não bastam ser   tão escrachadas  nos livros,  no cinema e na TV. Pitoresca também exagera na dose. Os atores Adriana Brito, Lázaro Tuim, Izabela Nascente, Eliana Santos e Liomar Veloso se esforçam, tentam ser engraçados. Só Tuim consegue arrancar algum riso com seus trejeitos de índio fora dos padrões. 

Patrocinada pela Petrobras, a companhia investiu na ficha técnica. Chamou Duda Paiva, ator goiano que vive na Holanda, para criar a boneca da velha índia. Marcos Lotufo criou as máscaras de animais do cerrado que os desfilam no palco encerrando o espetáculo, na trilha sonora original e projeções (dispensáveis).  

É válida a intenção do  grupo  investir na história do Brasil no seu novo espetáculo. Porém pelos excessos, a encenação torna-se longa, cansativa e nada engraçada.           

   

sexta-feira, 11 de setembro de 2015



                  PALAVRAS OUTRAS DE FEDERICO GARCIA LORCA


 



Poeta e dramaturgo espanhol. Autor das obras-primas da literatura moderna  Bodas de Sangue e A Casa de Bernarda Alba


"Minha arte não é popular. Nunca a considerei assim ... A maior parte de minha obra não o pode ser, ainda que pareça pelo tema, porque é uma arte, não direi aristocrática, mas depurada, com uma visão e uma técnica que contradizem a simples espontaneidade popular."


"O teatro sempre foi minha vocação. Dei ao teatro muitas horas de minha vida".


YERMA




                                              FALTOU EMOÇÃO   



Desde a estreia, planejava assistir a peça Yerma, montagem da Cia. Sala 3, que este ano comemora 13 anos de existência, sob o comando do diretor Altair de Souza, levada pela curiosidade de ver no palco a tragédia do casal de camponeses, escrita por Federico Garcia Lorca, em 1934.

 Poema trágico, emocional, o texto narra a história de Yerma, uma mulher sonhadora que almeja ser mãe. O marido, porém, não compartilha do seu desejo, dedicando-se muito mais ao trabalho no campo do a sua mulher.  Desprezada pelo marido, Yerma sente-se cada vez mais só e sem esperança de ver o sonho da maternidade realizado, é levada ao desespero, seguindo por um caminho que fatalmente a leva a cometer uma loucura.

 Visualmente exuberante, a produção do diretor Altair de Souza, destaca-se pelo cenário formado por tablados multifuncionais, figurino com muitas rendas e cores vibrantes e música flamenca na trilha sonora. A participação especial da  ótima dançarina e professora de flamenco Renata Paolucci enriquece a cena.  Novelos de lã, fios, cordões envolvem os personagens, caem pelo chão, à medida que a trama se desenrola. Some-se a tudo isso a iluminação muito bem desenhada por Rodrigo Assis. 

Bonito de ver. Infelizmente, falta emoção ao elenco da Cia. Sala 3. A interpretação é morna, pouco convincente. Não tem a força dramática, a complexidade e os sentimentos aflorados, que o texto dramático exige. Lorca é sanguíneo.  O desfecho da peça ficou confuso. Mal acaba de cometer um desatino, Yerma (atriz) começa a falar sobre Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo fuzilado durante da Guerra Civil Espanhola, em 1936. Simultaneamente, um vídeo vai sendo exibido com cenas da enorme tragédia que se abateu sobre a Espanha. Não dá tempo ao espectador assimilar a tragédia do casal.

Altair de Souza é um diretor talentoso, inventivo, ousado, principalmente quando decide encenar seis peças de uma só vez (duas de Garcia Lorca) para comemorar os 13 anos de sua companhia de teatro, porém precisa investir mais no seu elenco.

foto: Layza Vasconcelos
        

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

EMOÇÃO DA LOUCURA


                                                                                          

Admirador da obra de Guimarães Rosa, o diretor Danilo Alencar incursiona pelo universo do escritor mineiro que melhor retratou o sertão pela segunda vez. Se anteriormente, ele ousou adaptar Grande Sertão: Veredas em Ser Tão Grande, dessa vez foi buscar nas Primeiras Estórias o enredo para Os Avessos, baseado no conto Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha, a mais recente produção do Grupo Arte & Fatos, da Coordenação de Arte e Cultura da PUC Goiás.

O espetáculo, que estreou como um exercício teatral do grupo, ganhou dimensão maior na apresentação na Terça no Teatro SESI. Com uma boa interpretação de seus atores, Danilo conseguiu um resultado satisfatório com a nova montagem.
Narrada pelo padre do lugarejo, a história é muito triste.
Difícil não deixar a emoção aflorar com o drama vivido pelo sertanejo Sorôco, um viúvo pobre que vive com a mãe e uma filha loucas. Sem recursos para cuidar delas, é obrigado a embarcá-las no trem que as levará ao hospício em Barbacena (MG). Sorôco caminha arrastando as duas debaixo do sol inclemente do sertão, com resignação, sem lamentar a sorte.

Apesar dos poucos recursos de, Danilo Alencar foi capaz de fazer um espetáculo de qualidade. Lançou mão de objetos cênicos e alguns figurinos de Ser Tão Grande, criados pela figurinista Rosi Martins, mostrando que com esforço e dedicação pode-se construir algo novo. Tecidos toscos e sombrinhas bordados lembram peças de Arthur Bispo do Rosário. As máscaras usadas pelas mulheres revelam o sofrimento da loucura. Iluminação avermelhada  ressaltam a aridez de uma terra ingrata.

 Um espetáculo de Danilo Alencar nunca é o mesmo, por isso é sempre muito bom ver os seus trabalhos. A cada apresentação, ele insere alguma mudança. Investe em pequenos detalhes, arranca dos atores interpretações mais convincentes, e faz adequações no texto. Não foi diferente com Os Avessos, que vi na estreia. Quem poderia, senão Danilo Alencar, fazer o público acreditar no suave balanço do trem que parte deixando apenas a poeira atrás de si, e um emocionado Sorôco, sozinho na estação, carregando a sua dor.